Poema LXV – A liberdade

[Escrito a 29 de junho de 2017 ao som do murmurar de um segredo.]

A liberdade
desfila, desliza
percorre, escorre
enfia-se na carne
acapara-se das profundezas do corpo
deita-se, soberbamente, terna e viva
no mais recôndito dos espaços sem tempo.

Só aí ninguém ta pode roubar.

Neusa Veloso

Poema XLIV – A senhora da estrada

[Escrito a 24 de agosto de 2014 ao som da voz de uma dama.]

Passeando estrada fora

ouvi uma senhora cantar

que as almas deste mundo

eram feitas de substância amarga.

Quem as bebia, dizia,

cedo morreria de azedume.

Ouvindo história de morte sinistra no ar

aguçou-se-me o ouvido mouco.

Enchi-me de coragem no falar

e, especando-me à sua frente,

perguntei-lhe:

– Que coisas diz, minha senhora,

que me dá medo em vida estar,

de que me vale abrir os olhos cada dia

se a bebida que nos aguarda

é sem esperança no amar?

Neusa Veloso

Poema XLIII – Tristeza Sede

Tristeza.
Sede.
Sentir-se triste é ter sede.
Ontem bebi um litro de água de um só trago.
A tristeza não desapareceu.
A água não é solução para a tristeza.
Pelo menos a água que se bebe.
Hoje vou dar um mergulho num mar imaginário.
Quem sabe se as águas do mar, com seu teor salino, fazem a tristeza esmorecer.
Hoje vou bailar na floresta, respirar as folhas verdes, beber o perfume da natureza.
Quem sabe se as forças arborais, com seu teor clorofilino, baixam a concentração taciturna.
Hoje vou desaparecer. Para reaparecer. E voltar a desaparecer. E a reaparecer.
Não estou a jogar às escondidas. Estou a ouvir a voz do coração.

Tristeza.
Sede.
Água.
Mar.
Floresta.
Clorofila.
Desaparecimento.
Aparecimento.

Resumo do meu dia nascente.

Neusa Veloso, 7 de junho de 2020

Poema XLII – Incêndio familiar no feminino

[Data de confeção: 1 de agosto de 2017]

Folhas de papel,
vestido de folhas de papel,
boneca com vestido de folhas de papel,
menina pegando no colo uma boneca com vestido de folhas de papel,
mãe pegando no colo uma menina que pega em seu colo boneca
com vestido de folhas de papel.

O papel pega fogo e queima a boneca,
que queima a menina,
que queima a mãe.

Elas ficam reduzidas em pó.

De manhã, a empregada de limpeza abre a porta da sala de estar,
vê uma montanha de pó cinzento no chão ladrilhado e exclama:

− Santa Maria Mãe de Deus, que Diabo aconteceu?

Entoando uma voz que parecia surgida de terras longínquas
a montanha de cinzas respondeu:

− Tira-nos daqui, gentil senhora. Nossos corpos em poeira se tornaram.

− Ai valha-me Nossa Senhora e todos os Santos. Como posso eu tirar-vos daí?

− Rega-nos com água. Mete-nos ao sol.

Neusa Veloso

Poema XLI – Longos cabelos

[Escrito em 20 de abril de 2017, tinha eu 35 anos.]

Nesses longos cabelos me deitei.
Nesses longos cabelos o Eu abandonei.

Um a um foram caindo os cabelos,
uma a uma foram caindo as lágrimas.
Foi caindo o que foi, o que é, o que seria.

Foram-se abrindo fendas na terra
para engolir os fios envelhecidos
e as histórias humedecidas.

O dia amanheceu
de cor luzidia e alegre.

Neusa Veloso

Poema XXXIX – Quando nasci tinha cinco anos.

[Data de confeção: 23 de junho de 2008]

Quando nasci tinha cinco anos.
Quanto te amei tinha dez.
Nesses cinco anos de interregno
aprendi a bordar o teu nome desconhecido
denominando-te Amor.
Aprendi a tocar-te ao piano
e cada vez que começava
a consubstanciar-te em música
sentia cóceguinhas na ponta dos dedos.
No meu íntimo acreditava que eram beijinhos teus!
Aprendi a não falar
para não te baralhar o coração com palavras
e suscitar incompreensões onde não há,
porque é isso que fazem, por vezes, as palavras.

Agora sou mulher
e sei o teu nome.
Escrevo-te em linhas
agrupo-te em estrofes.
Junto, devagar,
aquilo que sinto, que sou, que és,
que somos, que fazemos,
que descobrimos, que tememos,
que abraçamos, que vivemos,
e dou forma a uma manta de retalhos
que me aquece e me recorda a cada momento
a Vida.

Neusa Veloso

Poesia XXXVIII – (Auto)retrato de uma rapariga.

27 de março de 2018

A rapariga que queria ser inteligente e que começou a comer dicionários em vez de batatas.

A rapariga que se achava poeta sem nunca ter lido um livro de poesia.

A rapariga que tinha plantas na varanda e ficava impávida olhando-as morrer.

A rapariga que pensava que envelhecer não era coisa para ela.

A rapariga que fechava a porta do quarto às chaves e se deitava debaixo da cama.

A rapariga que só vestia saia em dias ímpares.

A rapariga que deixou de depilar as axilas por razões que nada têm a ver com o feminismo.

A rapariga que fechava as persianas de dia e as abria à noite.

A rapariga que vivia mais tempo virada para dentro do que para fora.

A rapariga que bebia sempre um chai latte e comia uma fatia de carrot cake no dia do seu aniversário.

A rapariga que…

Neusa Veloso

Poema XXXVII – Aceitação

[Nascido a 10 de julho de 2010 de uma lágrima.]

Dá-me a mão
pequeno sol,
estende-me esses raios de luz!
Não há limites
na aventura do amanhecer!
Pisa a terra
com teus pés pequeninos,
toca as raízes da Natureza!

Deixa-te estar…

Brotarão flores
a cada lágrima tua.

Não maldigas a tristeza
que te sopra no coração
mostra-lhe antes
o caminho da transformação.

Neusa Veloso

Poema XXXVI – Espírito encarnado

[Escrito a 19 de junho de 2018, tinha eu 36 anos.]

Espírito encarnado
que fazes tu debaixo da cama?

(silêncio)

Espírito encarnado
porque te escondes e não dizes nada?

(silêncio)

Espírito, espírito, espírito
encarnado cor de fogo
já que não vens, vou aí buscar-te.

Salto da cama, meto-me de gatas, levanto a coberta que cobre os pés do leito, meto a cabeça no buraco escuro – sem medo de nada –, e estendo-lhe a mão dizendo:

Espírito, espírito, espírito
vem comigo ver a luz do dia,
vem comigo brincar lá fora:
andar de baloiço,
ouvir os pássaros cantar,
pisar a relva fresca,
sentir a frescura da terra na planta dos pés.

Neusa Veloso